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Representantes de Fóruns estão preocupados com rumo da saúde no país

Troca no comando do Ministério da Saúde continua sendo criticada por movimento social.

Agência Aids
20/04/2020

A demissão do médico Luiz Henrique Mandetta, agora ex-ministro da Saúde, continua repercutindo entre ativistas da luta contra a aids. No último dia 16, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a troca no comando da saúde. Quem assumiu a pasta foi o oncologista Nelson Teich. A Agência Aids ouviu representantes de Fóruns das ONGs/Aids de diferentes estados que falaram sobre as expectativas em relação ao enfrentamento da pandemia do novo coronavírus no Brasil.

Na opinião da ativista Evalcilene Santos, do Amazonas, o atual cenário de enfrentamento à Covid-19 é caótico. “Em relação às pessoas que vivem com HIV/aids, qual proteção a gente vai ter? Qual é a preocupação desse governo com a gente? A forma como trabalhamos aqui no Fórum inclui toda a população que o Ministério da Saúde classificou como chave. E nela se incluem os profissionais do sexo, os LGBT, população em situação de rua, as travestis, as transexuais.”

Mandetta e o presidente Jair Bolsonaro vinham divergindo sobre os caminhos para o combate à pandemia do novo coronavírus. O ministro se alinhava às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) pela adoção de um isolamento social mais forte, enquanto o presidente continua defendendo a abertura do comércio como forma de evitar impactos na economia.

Do Rio Grande do Sul, a militante Márcia Leão também está bastante preocupada com o rumo da saúde no Brasil. “Preocupa-me quando o presidente decide por substituir um ministro da saúde, nesse contexto da pandemia, por entender que ele não atende os interesses econômicos e pautava suas ações em preservar vidas e pensar na saúde da população. Espero que o novo ministro siga as recomendações da OMS, no que tange ao Covid-19 e que o Ministério da Saúde continue seguindo outros compromissos assumidos pelo país no enfrentamento as epidemias de aids, tuberculose e hepatites virais”.

Leia a seguir:

Evalcilene Santos, coordenadora do Fórum Amazonas de OSC, IST, Aids, Hepatites Virais e Tuberculose: “O Amazonas é um estado com muitos casos e mortes da Covid-19, vivemos uma situação de caos na saúde. O que a gente vem vendo, principalmente os movimentos sociais, é que este desgoverno não quer ver, não quer ouvir e muito menos quer que as pessoas sobrevivam. As pessoas que vivem com HIV/aids já foram chamadas de despesas. No discurso desse atual presidente, logo em campanha, ele não queria colocar nenhum tipo de política principalmente para a saúde dessa população. Preconceito, discriminação, é o papel maior do governo Bolsonaro. E com a chegada da pandemia, a gente vê isso bem claro, que as populações que mais sofrem são aquelas vivendo com HIV/aids, aquelas em situação de rua, aquelas em situações vulneráveis. Os ataques às pesquisas científicas estão sendo diárias. E agora, neste momento, da saída do ministro da Saúde, o Mandetta, que vinha com uma linha de cuidado, de isolamento para proteger a população, nós estamos extremamente preocupados porque nós não sabemos qual vai ser agora a situação dos brasileiros. As pessoas serão obrigadas a ir para a rua? Serão obrigadas a trabalhar informalmente para se infectarem com o coronavírus? É isso o que esse governo quer? A não priorização das pessoas mais idosas é o que já aparece no discurso desse novo ministro. Em relação às pessoas que vivem com HIV/aids, qual proteção a gente vai ter? Qual é a preocupação desse governo com a gente? A forma como trabalhamos aqui no Fórum inclui toda a população que o Ministério da Saúde classificou como chave. E nela se incluem os profissionais do sexo, os LGBT, população em situação de rua, as travestis, as transexuais. Essa população que o governo não quer ver bem assistida, não quer que elas existam, parece que o governo quer apagar essa população. No discurso desse presidente, ele coloca sempre que as pessoas são promíscuas e por isso se infectaram com HIV. Ele tira a responsabilidade da política pública de saúde à qual as pessoas têm direito. No nosso Estado, as pessoas estão morrendo em massa. E aí a preocupação com o descaso desse governo, com a irresponsabilidade de retirar um ministro que estava, neste momento – porque na verdade, o Mandetta foi a favor da PEC 95, que retirou o dinheiro, congelou o recurso do SUS –fazendo um papel super importante para todos. Aí o presidente, no seu achismo, por ser essa pessoa que não entende, que não valoriza a população brasileira, por não concordar com o isolamento social, demitiu esse ministro. Nós do Fórum Amazonas esperamos que esse novo ministro caminhe fortalecendo o isolamento, o cuidar da vida, o Sistema Único de Saúde, que neste momento é o nosso escudo em favor à vida. Nós repudiamos essa total irresponsabilidade do presidente Bolsonaro que demitiu uma pessoa que estava à frente, defendendo muitas vidas.”

Rafael Gomes, Coordenador Geral Do Fórum Alagoano ONG/Aids: “Achei a mudança inadequada e errada. O ministro vinha trabalhando de forma coesa e com uma transparência dos fatos. O que esperamos é que o novo ministro conduza o seu trabalho da mesma forma.”

Márcia Leão, coordenadora executiva do Fórum de ONG/aids do Rio Grande do Sul: “Trocar o ministro da saúde em plena pandemia da Covid-19 mostrou um enfraquecimento político, do presidente, que não soube lidar com uma popularidade maior que a sua, e o descaso desse com a saúde do povo brasileiro. O ministro Mandetta vinha propondo ações, que estavam despontando como efetivas, no enfrentamento a pandemia. Problemas haviam, como a falta de testes para todos, uma maior identificação dos casos, subnotificações e aparelhamento das unidades de saúde. Mas, apesar desses problemas, as medidas propostas mostraram se efetivas e o incentivo ao isolamento social, foi e ainda é importantíssimo. Preocupa-me quando o presidente decide por substituir um ministro da saúde, nesse contexto da pandemia, por entender que ele não atende os interesses econômicos e pautava suas ações em preservar vidas e pensar na saúde da população. Eu não conhecia o novo ministro da saúde, li e vi entrevistas com o atual ministro e não posso dizer que esteja confiante e otimista com sua indicação. As declarações que denotam preocupação com o gasto com respiradores, e não com as vidas que podem ser salvas, realmente o distanciam do perfil que penso em um ministro da saúde. Assim como espero que o novo ministro siga as recomendações da OMS, no que tange ao Covid-19, espero também, que em sua gestão, o ministério da saúde continue seguindo outros compromissos assumidos pelo país no enfrentamento as epidemias de aids, tuberculose e hepatites virais, entre outras doenças. Espero que o ministro honre as declarações e compromissos internacionais assumidos pelo Brasil e que consigamos avançar na resposta a essas epidemias.”

Álvaro Mendes, coordenador geral do Fórum de ONGs Aids do Acre: “É preocupante, pois se o novo ministro não tiver sua autonomia para seguir os protocolos da OMS, dos líderes mundiais, governadores e prefeitos, que é o isolamento social, a saúde brasileira, que já é debilitada devido ao desfinanciamento dos últimos anos, somado a falta de recursos das instituições de ensino e pesquisas, e a retirada dos recursos sociais para a população em situação de vulnerabilidade social, podemos mergulhar no caos social e na saúde. Espero que o mesmo siga as evidências científicas.”

Karen de Oliveira Diogo, secretária do Fórum de ONGs Aids de Rondônia: “Segundo as palavras do próprio ministro, e imprescindível conseguir melhor informação pra a tomada de qualquer decisão. Isso de fato nos tranquiliza, haja visto que a pandemia que enfrentamos pode com certeza colapsar todo o nosso sistema de saúde pública e muitos irão padecer, principalmente os mais vulneráveis, que não terão acesso ao serviços e nem aos equipamentos como já vem acontecendo em alguma localidades. Defender o fim do isolamento de acordo com os números de infectados também é um fator preocupante, haja visto que não há teste suficientes e em muitos Estados de nossa federação os números não são os reais, especialmente o Estado de Rondônia, onde travamos uma luta diária com os gestores locais tanto do Estado como do município, para a manutenção do isolamento social. O que é fundamental é que isso seja cada vez mais baseado em informação sólida. Quanto menos informação você tem, mais aquilo é discutido na emoção, acrescentou. Com essa afirmação podemos concluir, não há essa informação sólida. Deixar claro que existe um alinhamento completo aqui entre mim, o presidente e todo o grupo do ministério. Realmente o que a gente está fazendo aqui hoje é trabalhar para que a sociedade retome de forma cada vez mais rápida uma vida normal e a gente trabalha pelo país e pela sociedade, afirmou. Nesta fala o novo ministro põe a baixo, todo o seu discurso que nos tranquilizou de início, pois é de conhecimento de todos os brasileiros a forma negligente e desidiosa que o Presidente da República vem tratando essa situação que não só o Brasil mais o mundo inteiro enfrenta.”