Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids call [11] 98212-6950 email mopaids@gmail.com

Primeira fase de estudo para vacina contra HIV mostra resultados promissores

A vacina experimental teve sucesso em estimular a produção de células imunes raras, necessárias para gerar anticorpos amplamente neutralizantes contra vírus de mutação rápida.

Agência Aids
04/02/2021

Um ensaio clínico de fase 1 testando uma nova abordagem de vacina para prevenir o HIV produziu resultados promissores que foram apresentados durante a Conferência de Pesquisa para Prevenção ao HIV, em inglês, a HIV Research for Prevention (HIVR4P).

A vacina teve sucesso em estimular a produção de células imunes raras, necessárias para iniciar o processo de geração de anticorpos contra o vírus de mutação rápida. A resposta direcionada foi detectada em 97% dos participantes que receberam a vacina.

“Este estudo demonstra o princípio para um novo conceito de vacina para o HIV, um conceito que poderia ser aplicado a outros patógenos também. Com nossos muitos colaboradores na equipe de estudo, mostramos que as vacinas podem ser projetadas para estimular células imunes raras com propriedades específicas, e essa estimulação direcionada pode ser muito eficiente em humanos. Acreditamos que esta abordagem será a chave para fazer uma vacina contra o HIV e possivelmente importante para fazer vacinas contra outros patógenos.” disse William Schief, PhD, professor e imunologista do Scripps Research e diretor executivo para design de vacina no IAVI’s Neutralizing Antibody Center.

William Schief, PhD e Dennis Burton, PhD. Ambos da Scripps Research e IAVI’s Neutralizing Antibody Center e pesquisadores da vacina experimental eOD-GT8 60mer, contra o HIV
Os pesquisadores William Schief, PhD (esq.) e Dennis Burton, PhD da Scripps Research e IAVI’s Neutralizing Antibody Center.

O ensaio clínico, IAVI G001, foi realizado em Washington e em Seattle, inscrevendo 48 voluntários adultos saudáveis. Os participantes receberam um placebo ou duas doses do composto da vacina, eOD-GT8 60mer, juntamente com um adjuvante desenvolvido pela empresa farmacêutica GSK.

“Este estudo é um marco no campo da vacina contra o HIV, demonstrando sucesso na primeira etapa de um caminho para induzir anticorpos neutralizantes amplos contra o HIV-1”, disse Julie McElrath, PhD, vice-presidente sênior e diretora da divisão de vacinas e doenças infecciosas do Fred Hutchinson Cancer Research Center e principal investigadora do HIV Vaccine Trials Network Laboratory Center em Seatle. “O novo design do imunógeno, o ensaio clínico e as análises moleculares das células B fornecem um roteiro para acelerar o progresso em direção a uma vacina contra o HIV.” completa ela.

O estudo prepara o terreno para ensaios clínicos adicionais que buscarão refinar e estender a abordagem com o objetivo de longo prazo para criar uma vacina segura e eficaz contra o HIV. Como uma próxima etapa, a IAVI afirma estar em parceria com a empresa de biotecnologia Moderna para desenvolver e testar uma vacina baseada em mRNA que aproveita a abordagem para produzir as mesmas células imunológicas benéficas. O uso da tecnologia de mRNA pode acelerar significativamente o ritmo de desenvolvimento da vacina contra o HIV.

O HIV, que afeta mais de 38 milhões de pessoas em todo o mundo, é conhecido por ser um dos vírus mais difíceis de combater com uma vacina, em grande parte porque evolui constantemente para diferentes cepas para escapar do sistema imunológico.

“Essas descobertas empolgantes emergem de uma ciência extremamente criativa e inovadora e são uma prova do talento, dedicação e espírito colaborativo da equipe de pesquisa e da generosidade dos participantes do ensaio”, disse Mark Feinberg, presidente da IAVI. “Dada a necessidade urgente de uma vacina contra o HIV para conter a epidemia global, pensamos que esses resultados terão amplas implicações para os pesquisadores de vacinas contra o HIV, conforme eles decidem quais direções científicas seguir. A colaboração entre indivíduos e instituições que tornou isso importante e excepcionalmente complexo, um ensaio clínico tão bem sucedido será tremendamente capaz de acelerar futuras pesquisas de vacinas contra o HIV. ”

Os anticorpos amplamente neutralizantes

Por décadas, os pesquisadores buscaram forma de estimular o sistema imunológico a criar anticorpos raros, mas poderosos, que podem neutralizar diversas cepas do HIV. Conhecidos como “anticorpos amplamente neutralizantes”, ou bnAbs, essas proteínas especializadas do sangue podem se ligar a picos de HIV, proteínas na superfície do vírus que permitem que ele entre nas células humanas e os desabilita por meio de regiões importantes, porém de difícil acesso, e que não variam muito de cepa para cepa.

“Nós sabemos há muitos anos que, para induzir bnAbs, você deve iniciar o processo ativando as células B certas. São células que têm propriedades especiais com potencial para se desenvolverem em células secretoras de bnAb”, disse Schief. “Neste ensaio, as células-alvo eram apenas cerca de uma em um milhão de todas as células B virgens. Para obter a resposta certa de anticorpos, primeiro precisamos preparar as células B certas. Os dados deste ensaio afirmam a capacidade do imunógeno da vacina para fazer isso.”

A etapa de preparação seria o primeiro estágio de um regime de vacina de várias etapas com o objetivo de induzir muitos tipos diferentes de bnAbs, diz ele.

Compromisso alé do HIV

Os pesquisadores acreditam que esta abordagem também pode ser aplicada em vacinas para outros patógenos desafiadores, como influenza, dengue, Zika, vírus da hepatite C e malária.

“Esta é uma grande conquista para a ciência das vacinas como um todo”, disse Dennis Burton, PhD, professor e presidente do Departamento de Imunologia e Microbiologia da Scripps Research e diretor científico do IAVI’s Neutralizing Antibody Center. “Este ensaio clínico mostrou que podemos impulsionar as respostas imunológicas de maneiras previsíveis para fazer vacinas novas e melhores, e não apenas para o HIV. Acreditamos que esse tipo de engenharia de vacina pode ser aplicado de forma mais ampla, trazendo um novo dia para a vacinologia”.

Lições do HIV para Covid

Durante a abertura da Conferência, os cientistas não puderam deixar de lado a pandemia do novo coronavírus. Segundo os estudiosos, nos últimos 40 anos, cientistas e ativistas enfrentaram muitos desafios em torno do combate à pandemia do HIV, desde combater a negação do vírus até encontrar uma vacina. Embora o recente surgimento da nova pandemia Covid-19 traga novos desafios para a prevenção do HIV, também cria uma oportunidade para compartilhar conhecimentos e coloborar no combate a essas epidemias.

Lições sobre o papel da comunidade

  ●   Como foi visto com a epidemia de HIV, há, mais uma vez, uma carga desproporcional de doenças entre a população negra.

  ●    43% das novas infecções por HIV ocorrem entre afro-americanos nos Estados Unidos, embora essas comunidades constituam apenas 13% da população geral do país. Essa disparidade de infecções também está se refletindo na atual pandemia de Covid-19.

  ●   Uma das lições aprendidas durante os estágios iniciais da epidemia de HIV foi a importância de os pesquisadores se engajarem com as comunidades desproporcionalmente afetadas por uma doença.

Segundo Anthony Fauci, do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosa nos Estados Unidos, a corrida para encontrar uma vacina para Covid-19 exemplifica melhor a relação na pesquisa sobre as duas pandemias. “O desenvolvimento de uma vacina contra o HIV continua sendo um desafio. No entanto, os avanços na vacinologia do HIV, embora ainda não tenhamos uma vacina contra o HIV, abriu o caminho para as vacinas contra a SARS-CoV-2. Parte disso também se deve ao fato de que a natureza da pandemia Covid-19 reuniu pessoas de diferentes áreas e lhes permitiu combinar suas pesquisas para encontrar soluções para este novo desafio.”