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HPV: mulheres maduras também deveriam pensar na vacina

Existem mais de 100 variações desse vírus e estima-se que pelo menos 450 milhões de mulheres no mundo inteiro sejam portadoras de um deles.

UOL
24/11/2021

Quem foi que disse que uma mulher de 30 e poucos, 40 anos não poderia ou não deveria tomar a vacina de HPV? Vou além: e quem foi que disse que uma mulher até mais madura, acima dos 45, talvez com seus 50 ou 60 anos, não poderia ou não deveria tomar a vacina de HPV?

O questionamento é inevitável depois de assistir à aula da professora Susana Aidé Viviani Fialho, da Universidade Federal Fluminense, durante o 59º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, que terminou no último sábado, 20.

Coube à médica, membro da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), falar sobre a imunização de mulheres maduras contra o papilomavírus humano. Valeria a indicação?

Existem mais de 100 variações desse vírus e estima-se que pelo menos 450 milhões de mulheres no mundo inteiro sejam portadoras de um deles. A maioria causa lesões que, apesar de simples e benignas, podem ser pra lá de constrangedoras, como as verrugas genitais que, às vezes, se atrevem a ficar visíveis.

A maior preocupação, porém, é que pelo menos 14 tipos de HPV causam alterações celulares que são precursoras de tumores malignos. Cerca de 70% dos casos de câncer de colo uterino têm o HPV 16 ou o HPV18 por trás, começa por aí.

Por isso mesmo, a OMS (Organização Mundial de Saúde) conclama os países a varrerem essa dupla do mapa. Como? Vacinando 90% das meninas com 15 anos de idade até 2030, meta que é um bocado ambiciosa.

Sim, o alvo das campanhas são as meninas. E tem lógica: “Há um pico da infecção entre os 18 e os 25 anos de idade, quando muitas delas iniciam sua vida sexual”, explica Susana Aidé. Aliás, a vacina é dada até antes, no despontar da adolescência, justamente para não deixar o vírus fazer estragos quando chegar esse momento.

“No entanto, os dados científicos mostram que, especialmente nos países da América Latina, há um segundo pico nas mulheres acima de 35 anos. Embora ele seja mais modesto do que o das jovens, não há dúvida de que também contribui para a incidência das doenças provocadas pelo HPV.”

A lista de males não para no câncer de colo uterino. O HPV também está envolvido nos tumores de vulva, vagina, ânus e orofaringe no sexo feminino. Apesar disso, a vacinação quase nunca é abordada na consulta ginecológica de mulheres maduras que não levam uma vida menos movimentada, se me entendem. Aí é que está: a vida sexual continua, ainda bem! Mas, consequentemente, a ameaça de pegar o HPV também.

Afinal, mulheres maduras podem ser vacinadas?

No Brasil, a vacina do HPV desembarcou ainda em 2006 e, desde 2014, é oferecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para meninas de 9 a 14 anos e para meninos de 11 a 14 anos. Entre nós, é aplicado o imunizante quadrivalente, que protege contra os terríveis HPV 16 e 18 e, ainda, contra os tipos 6 e 11. Nos adolescentes, são duas doses, com um intervalo de seis a 12 meses.

Boa notícia, em março deste ano, pacientes imunossuprimidas de até 45 anos — por causa de um tratamento oncológico, por exemplo — também têm o direito à vacina.

Mulheres na mesma faixa etária que não têm problemas com a imunidade precisam recorrer à rede privada. Pesa no bolso, pois decididamente não estamos falando da vacina mais barata do planeta. Ao contrário.

Mas, se tiver condições de investir, qualquer mulher de até 45 anos pode entrar em uma clínica de vacinação privada e pedir, de boa, para tomar a injeção.

“A diferença é que, acima dos 14 anos, a recomendação é de três doses”, lembra a professora Susana. A picadinha extra é para garantir que o sistema imunológico de quem não é mais uma adolescente responda da melhor maneira possível.

Já após os 45 anos nenhuma clínica aceitará que você chegue com a cara e a coragem pedindo para se vacinar contra o HPV. Será preciso levar na bolsa uma prescrição. “É que, ao ser lançada, a vacina quadrivalente só foi estudada em mulheres de no máximo 45 anos. Portanto, é a idade que consta na bula”, justifica a ginecologista.

Ora, as clínicas de vacinação, até segunda ordem — ordem médica, bem entendido — obedecem a bula. Ao que importa: “Sabemos que essa vacina é segura em qualquer faixa etária,” diz a médica.

E, se podem, as mulheres maduras deveriam ser vacinadas?

“Muitas mulheres se separam e têm novas parcerias sexuais depois dos 45 anos”, observa Susana Aidé. “Por que, então, não oferecer a vacina em casos assim? É para discutir com o médico, mesmo que seja uma sexagenária”, pensa.

Cada novo encontro sexual é uma oportunidade para o vírus. Um carinho aqui, uma boca ali, uma mão curiosa, um roçar mais íntimo e, pronto, ele é transmitido. “A infecção é ainda mais facilitada nas relações com penetração. Aí, o próprio atrito cria fissuras microscópicas nas mucosas dos genitais que funcionam como brechas para o HPV”, explica a ginecologista.

Camisinha é sempre bem-vinda às mulheres com vida sexual ativa e divertida. Mas saiba que, sozinha, ela não faz prevenção quando se trata do HPV. “O vírus pode estar na base do pênis, que o preservativo não cobre, e até mesmo no saco escrotal”, informa a professora. Encostou? Levou!

É bem verdade que, em um estudo recente com colombianas, ficou claro que o risco de mulheres maduras contraírem o HPV foi praticamente a metade do risco de jovens entre 15 e 19 anos pegarem o mesmo vírus ao longo de um período de cinco anos — 22% nas mais velhas contra 45%, respectivamente.

Ou seja, como política pública, faz todo o sentido esperar que a maior parte das infecções capazes de levar a um câncer ocorreram mais cedo, priorizando a vacinação das adolescentes. Mas, do ponto de vista individual, quando a mulher está saindo com pessoas diferentes — ou mesmo que seja um único novo namoro —, a ameaça existe.

“E é mais difícil se livrar do vírus com o passar da idade”, completa Susana Aidé. Isso porque, em 90% das vezes, o organismo dá conta de eliminá-lo depois de um ou dois anos. Mas essa capacidade despenca com o tempo. Em tese, na mulher madura essa infecção tem maior probabilidade de seguir em frente e desenvolver lesões, mesmo que sejam aquelas benignas, mas nada, nada agradáveis.

Quem não completou o esquema vacinal

É bem possível que existam mulheres já na maturidade que, por um motivo qualquer, tenham tomado apenas a primeira dose da vacina contra o HPV no passado. E agora? “Vacina aplicada é vacina computada. Essas mulheres não precisam recomeçar do zero”, esclarece Susana. “Elas deverão tomar a segunda e a terceira apenas”. Ok, não é para a gente se esquecer dessa terceira.

É necessário tomar vacina se alguém já teve a infecção?

A resposta da médica é um sonoro sim. “Quando o vírus entra em uma célula, ele logo se replica e sai para infectar as vizinhas”, descreve. É nesse instante, entre uma célula e outra, que os anticorpos poderiam pegá-lo literalmente no pulo. Mas…

“A gente sabe que o HPV não fica circulando pelo sangue, o que ajudaria o sistema imunológico a reconhecê-lo”, diz a professora. “Por isso, na infecção natural, não há formação de anticorpos robustos. Só a vacina consegue isso.”

Em um trabalho comparando 3.939 mulheres que foram vacinadas após terem doença HPV induzida e outras 17 mil que, depois de contraírem o vírus, não tomaram a vacina, chegou-se à conclusão de que o risco de a infecção persistir ou voltar a acontecer fica reduzido em 81% quando a imunização entra em cena. De novo, por causa dos anticorpos que só ela induz.

Um recado aos homens maduros

Assim como as mulheres podem cogitar a vacina contra o HPV depois dos 45, os homens podem pensar em tomá-la após os 26 — porque, no sexo masculino, a quadrivalente só foi testada até essa idade. No caso deles, lembrando: após os 14 e antes de completarem 26, é possível se vacinar sem receita médica em uma clínica privada. E, depois dos 26, só com a prescrição.

“Incentivar a vacinação dos homens não é apenas uma forma de proteger as mulheres, diminuindo a circulação do vírus”, nota Susana Aidé. “Neles, o HPV causa o câncer de pênis, sem contar os tumores de boca e de garganta, que se tornam cada vez mais frequentes.”
Inclua a moçada no passeio

Se, conversando com o seu médico, decidir que irá tomar a vacina, aproveite para levar os adolescentes para esse programa, fazendo uma escala no posto de vacinação do SUS a que eles têm direito.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2020 apenas 55% das meninas brasileiras na faixa dos 9 aos 14 anos tomaram as duas doses da vacina contra o HPV. E somente 36,4% dos meninos completaram o esquema vacinal.

Nesse mesmo período, 16 mil mulheres foram diagnosticadas com câncer de colo uterino e 6,5 mil morreram por causa dele. Lamentável, quando a vida com a vacina seria longa e com um punhado de prazeres — incluindo o do sexo na maturidade.