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Brenda Lee, o anjo da guarda das travestis e transexuais soropositivas

Alguém que cedeu sua própria casa para atender pessoas marginalizadas. Pioneira no cuidado entre pares. Enfrentou o preconceito social e do meio médico. Assumiu a postura de cuidar do outro. Confrontou a todos que precisou para ajudar as travestis e as diagnosticadas com aids. Tudo isso num momento da história em que ninguém sabia nada a respe

Agência Aids
01/07/2016

Alguém que cedeu sua própria casa para atender pessoas marginalizadas. Pioneira no cuidado entre pares. Enfrentou o preconceito social e do meio médico. Assumiu a postura de cuidar do outro. Confrontou a todos que precisou para ajudar as travestis e as diagnosticadas com aids. Tudo isso num momento da história em que ninguém sabia nada a respeito da doença e as travestis não recebiam ajuda de ninguém.

Brenda-Lee nasceu no sertão de Pernambuco, em Bodocó (próximo à divisa com o Ceará), no dia 10 de janeiro de 1948. Foi registrada como Cícero Caetano Leonardo. Aos 14 anos, mudou-se para São Paulo e, conhecida como Caetana, foi morar no bairro do Bixiga. Mas foi como uma mulher alta, bela, de longos cabelos loiros e sempre de salto alto que a imagem dela ficou eternizada.

Aos 28 anos, segundo uma publicação da “Folha de S. Paulo”, Brenda decidiu trocar as roupas masculinas por saias e o emprego numa loja por programas nas ruas.

Em 1984, comprou uma casa na rua Major Diogo, 779, na Bela Vista, onde passou a morar e abriu uma pensão. Lá, começou a acolher as travestis expulsas de suas casas e abandonadas por suas famílias, por causa da sexualidade. Brenda também viabilizou a migração de diversas travestis para a Europa – elas partiam em busca de melhores condições de vida. Para aquelas que decidiam voltar e não tinham para onde ir, Brenda deixava aberta a porta da sua pensão.

Palácio das Princesas

Em 1985, um ano depois de ter comprado o imóvel da Bela Vista, aconteceu uma série de assassinatos de travestis em São Paulo. Brenda, então, acolheu um número maior de meninas e, por causa delas, a pensão recebeu o nome de Palácio das Princesas. Ela esperava transformar o lugar numa casa de luxo, onde travestis e transexuais encontrassem conforto e tranquilidade. Hoje, mesmo após reformas para ampliação, no andar inferior ainda se notam detalhes da construção que remetem a um castelo.

“Neste ano, nós, [da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo], vimos uma declaração da Brenda no jornal. Ela tinha ido resgatar uma travesti na delegacia. O repórter perguntou se ela receberia uma travesti com aids e ela respondeu: "Todas, não importa em que situação estiverem, serão bem-vindas",” conta Paulo Teixeira, médico sanitarista que criou e coordenou por anos o primeiro programa para o controle da aids do país.

A infectologista Rosana Del Bianco já trabalhava no Hospital Emílio Ribas, onde atendeu os primeiros casos de aids no início da epidemia, e também lembra do episódio. “No final dos anos 80, em meio à perseguição a travestis houve um tiroteio. A Brenda, na entrevista ao repórter, havia oferecido a casa dela, mas era de uma maneira implícita, dizendo que não tinha problema em receber pessoas com aids. Daí, gente de toda parte começou a bater na casa dela, que foi se tornando um albergue. Além da pensão, ela tinha outros comércios e começou a vender suas coisas pessoais para ajudar os outros.”

Segundo Paulo Teixeira, Brenda acolhia as travestis abandonadas ou afetadas pela doença. Mas, além disso, ela se prontificou publicamente e por meio da imprensa a defender essa população. Com o tempo, algumas amigas dela começaram a aparecer doentes e ela acolhia também. Até receber o primeiro paciente com HIV, em 1986.

“Brenda surgiu de um meio marginalizado e se mostrou uma das figuras mais importantes na luta contra a aids. Nos procurou e estabelecemos um acordo informal. Passamos a oferecer assistência médica na casa e ela nos auxiliava acolhendo as travestis que passavam pelo serviço de saúde e não tinham abrigo”, conta Paulo Teixeira.

“Ser excepcional”

Um ser excepcional que se destacou por defender outras travestis, principalmente contra a violência policial, na década de 1980. É assim que Paulo Teixeira a define. Brenda Lee estava fora do cenário que se espera de ação social e quando os primeiros casos de aids apareceram, ela também acolheu. “Pouco tempo depois fundou a primeira casa de apoio do Brasil”, afirma Paulo Teixeira.

O objetivo era dar assistência médica, social, moral e material às travestis com HIV. Brenda batalhou para conseguir recursos e melhorar o acolhimento da casa. Foi a programas de TV, deu palestras e fez eventos em casas de shows. E, por muitos, era chamada de "anjo da guarda das travestis".

De acordo com Rosana Del Bianco, hoje da Terapia Intensiva do Emílio Ribas, essa parceria, feita com a Saúde, abriu um campo internacional para mostrar o trabalho da Brenda. “Ela começou a dar aulas e foi capa de revistas internacionais. Aonde a gente ia, mostrava o trabalho dela. Na casa tinha uma atividade de trabalhos manuais, inclusive um de tapeçaria, e a gente a incentivou a vender. Eu cuidava de toda a parte técnica do Emílio Ribas para acompanhar os pacientes que eram acolhidos na casa dela”, revela Rosana Del Bianco.

Além de dar palestras no Brasil, Brenda viajou para outros países contando sobre o trabalho que fazia na Bela Vista. Na preparação de sua primeira viajem internacional, teve outro obstáculo: a polícia federal não aceitava que Brenda estivesse vestida de mulher na foto do passaporte. Exigiam paletó e cabelo cortado ou preso.

“Ela recusou vestir-se de homem. O Pinotti era secretário da Saúde [José Pinotti, de 1987 a 1991] e teve de interferir. Ele falou com a Justiça e deixaram que ela estivesse vestida como ela era”, conta Rosana.

Parceria com Hospital Emílio Ribas

A médica também levava seus residentes para cuidarem das pessoas que precisavam de atendimento na casa da Brenda. Para ela, essa foi uma experiência importante, inclusive para a formação desses profissionais.

O infectologista Jamal Suleiman foi um dos residentes de Rosana Del Bianco. Segundo lembra, o atendimento domiciliar não era uma prática de política pública e esse era um dos primeiros atendimentos que médicos de uma instituição se organizavam para fazer na residência dos pacientes de maneira pública e gratuita.

Nesse período, ninguém queria atender doentes de aids. “Lembro que, no hospital, tinham atendido mal uma das pessoas que ela acolhia. Eu tinha assumido a direção do pronto socorro e ela foi brigar por essa pessoa. Então, eu a chamei para conversar. Foi quando eu disse que poderia atender na casa dela”, diz Jamal.

Brenda improvisou em seu quarto uma sala para atendimento. Jamal e um auxiliar de enfermagem iam até o Palácio das Princesas em uma Kombi que não tinha banco. “Era o que a gente tinha. A gente ia encostado, mas o importante era chegar. Chegávamos bem cedo, para pegar vaga na rua. A casa ficava em frente a um banco e as pessoas não gostavam de saber que ali havia uma casa com travestis. A Brenda entregou o quarto dela para a gente atender. Poucas pessoas fariam o que ela fez”, conta Jamal.

Jamal vai se emocionando à medida em que relembra momentos de sua convivência com Brenda Lee. Ele atendia as soropositivas, as que adoeciam e oferecia o exame de HIV para as outras travestis que trabalhavam e moravam na casa. Uma educadora fazia visitas ao lugar para falar sobre o uso da camisinha.

“A Brenda também foi cafetina, mas isso não a impediu de assumir uma postura de cuidar. Ela assumiu que mais importante do que agenciar, mais importante do que ganhar dinheiro, era cuidar daquelas pessoas abandonadas por suas famílias. Estamos falando de um período em que as pessoas faziam de tudo para não se envolver com a doença e as travestis eram vistas apenas como diversão sexual.”

Uma parte da vida de Brenda também foi retratada no filme documentário dirigido pelo cineasta suíço Pierre-Alain Meier, intitulado “Dores de Amor”, de 1988. Nele, o diretor expôs a vida nua e crua de quatro mulheres transgêneras -- Andréia de Maio, Claudia Wonder, Condessa da Nostromundo e Thelma Lipp – além de Brenda Lee.

Nova fase

Em 1988, Brenda firmou convênio com a Secretaria de Estado de Saúde para acolhimento e cuidado de soropositivos, independentemente de gênero, sexo, orientação sexual ou qualquer outra distinção. “Dessa maneira, foi possível ampliar o trabalho. Com o acordo, ela começou a receber formalmente um repasse mensal do estado para atender um número determinado de pessoas”, afirma Paulo Teixeira.

Mas só em 1992 a Casa de Apoio Brenda Lee foi juridicamente constituída. Sua ata de fundação é registrada no 5º Ofício do Registro de Títulos e Documentos de São Paulo, sob o nº 12.864 e Brenda sua presidente vitalícia.

Thiago Aranha, assistente social e atual diretor-presidente da Casa de Apoio Brenda Lee, conta que a casa também tinha uma ala para cuidar das travestis que estavam com tuberculose. E ela também contava com a ajuda auxiliares de enfermagem, que eram travestis.

Ambulância rosa

A dedicação de Brenda ao acolhimento e bem-estar dos moradores da casa era inquestionável. “Era uma ação espontânea, de muito cuidado. Aqui, tinha uma ambulância e era ela quem dirigia. Então, se alguém tinha alguma complicação de saúde, ela colocava na ambulância e levava para o hospital”, conta Thiago Aranha.

A ambulância era, na verdade, o carro de Brenda, um Santana na cor de rosa, que ela adaptou para levar as doentes ao ambulatório e ao pronto-socorro do Hospital Emílio Ribas.

“Hoje, em 2016, muito se luta para que as pessoas respeitem a diversidade. Imagine naquela época. Hoje, há tratamento para o HIV e ainda tem muito preconceito. Imagine em um momento em que a assistência era dramática”, compara Jamal.

28 de maio de 1996: Brenda é assassinada

Em 1996, a casa atendia 27 pessoas. No dia 28 de maio, uma terça-feira, Brenda, aos 48 anos, foi brutalmente assassinada com um tiro na boca e outro no peito. Seu corpo foi encontrado num terreno baldio.

Segundo relatos da época, um empregado da casa, Gilmar Dantas Felismino, na ocasião com 20 anos, adulterou um cheque emitido por Brenda. Ele transformou o valor de R$ 950 em R$ 2.950. Brenda registrou queixa do crime na delegacia, em uma segunda-feira, dia 27 de maio. Ela teria, depois, recebido um telefonema e se dirigido ao encontro marcado. Depois desse dia, não foi mais vista com vida.

Para Jamal, Brenda venceu o preconceito e cuidou de seus pares. Uma história humana e incomum, que teve um fim trágico: “Para mim, ela foi vítima da homofobia. Esse garoto, que trabalhava com ela, tinha dificuldade de lidar com a própria sexualidade e acabou com a vida dela. É assim que eu vejo. Fora a questão do dinheiro. Ele não entendeu que tudo aquilo era algo maior, não era dela”.

A missa de corpo presente foi realizada pelo padre Júlio Lancellotti, representando o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, na sede da casa de apoio, no dia 30. No dia 31 de maio, o criminoso foi preso. A instituição passou a ser administrada por uma diretoria executiva, formada por cinco membros, em colaboração com um conselho fiscal, de três e um consultivo, de 15.

Luta imortalizada

O imóvel foi comprado da família de Brenda, em fevereiro de 2000, por meio de um Instrumento Particular de Cessão de Direitos Hereditários e Dação em Pagamento.

A Casa de Apoio Brenda Lee foi a primeira a firmar acordo com o governo focado na assistência a travestis que vivem com aids e ainda é a única que foca exclusivamente nas travestis que vivem com HIV. “Hoje, o estado de São Paulo conta com 21 casas de apoio para pessoas que vivem com HIV e todas recebem incentivo do governo”, afirma Jean Carlos de Oliveira Dantas, diretor do Núcleo de Articulação com a Sociedade Civil do Programa Estadual de DST, HIV, Aids de São Paulo.

“Antes de morrer, ela tinha adquirido uma fazenda. Ia montar um espaço para pessoas soropositivas que estavam em um estágio melhor da doença. Um projeto que não pôde ter continuidade”, lamenta a médica Rosana Del Bianco. “O trabalho da Brenda Lee tornou-se referência nacional e internacional no cuidado às pessoas com HIV/aids. Ela é um símbolo do nosso país.”