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Congresso de DST e HIV: Kevin De Cock, diretor do CDC, defende que outras ISTs tenham mais atenção das agendas globais

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam 357 milhões de novos casos de ISTs todos os anos.

Agência Aids
10/07/2017

“Nos orgulhamos em dizer que a medicina é uma arte, sendo que ela é uma ciência. Fazemos isso quando falhamos. Os clínicos não entendem a arte de interpretar a sorologia da sífilis, pois usamos abordagens antigas para as infecções sexualmente transmissíveis (IST). Os diagnósticos das ISTs não são prioridades das agendas mundiais. Tecnologias de ponta usadas para o HIV poderiam ser empregadas nas outras ISTs, mas isso não acontece. Continuamos com metodologias de séculos atrás. Nos desafios da Agenda 2030, de Desenvolvimento Sustentável, apenas um item se dedica a saúde”, afirmou o virologista Kevin M. De Cock, diretor do Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC --sigla em inglês), durante sua palestra sobre “HIV, IST e Evolução na Saúde Global”, no 22º Congresso Mundial de Doenças Sexualmente Transmissíveis e HIV, 11º Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis e 7º Congresso Brasileiro de Aids, na noite deste domingo (10), no Rio de Janeiro.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam 357 milhões de novos casos de ISTs todos os anos. “São 291 milhões casos são de HPV em mulheres, cerca de 300 mil mortes fetal e neonatal por sífilis e aumento de 35% da sífilis congênita.”

Dr. De Cock afirma que decisões de financiamentos precisam ser baseadas em dados estatísticos e epidemiológicos. Também, que é preciso politicas estruturadas e defesa de direitos: “No mundo, os direitos são mais retirados do que fornecidos, a sífilis, por exemplo, continua florescendo na saúde global e os números só aumentam”.

Durante a palestra, o especialista comparou os dados epidemiológicos do HIV com outras ISTs. Segundo ele, o movimento social e personalidades importantes deram visibilidade ao HIV. “O mesmo não aconteceu com outras ISTs. Os estudos que temos são terríveis. Precisamos de alianças para participar de agendas mais amplas. Todas as ISTs merecem mais atenção.”

Estudos mostram uma redução de 80% na infecção pelo HIV quando há maior controle de outras ISTs, mostrou o virologista. “Porém, hoje, o tratamento [Tasp] tornou-se o ponto central na prevenção do HIV”.

Tuberculose e HIV

Um terço da população mundial está infectado com a tuberculose (TB), segundo dados do CDC. Em 2015, cerca de 10,4 milhões de pessoas adoeceram em decorrência da doença. Aproximadamente, 1,8 milhão de mortes no mundo está relacionada à TB e 580 mil são de TB multiresistente.

No caso do HIV, são 2,1 milhões de novas infecções por ano e 1,1 milhão de óbitos. 36,7 milhões de pessoas vivem com HIV. No mundo, a TB é a maior causa de mortes de pessoas que vivem com HIV. “O vírus é o maior desafio global das doenças infecciosas. Nós insistimos que os países possam apresentar vacinas para o HIV, além de tratamentos melhores e mais curtos para a tuberculose e sífilis, mas o atual cálice sagrado é a cura para o HIV”, afirmou o especialista que parabenizou o Brasil pela liderança ao fornecer acesso universal ao tratamento para o HIV.

“Os dados de tuberculose, sífilis, malária e cólera mostram que não estamos bem. Os investimentos para o tratamento da malária na África é muito inferior ao do HIV”, comentou o diretor do CDC. De 2000 a 2015, foram notificados 214 milhões de casos de malária e 438 mil mortes, 88% dos casos e óbitos são da África.

Doenças negligenciadas e emergenciais

As doenças negligenciadas também preocupam governos e sociedade cientifica internacional. Segundo dados da OMS, 1,6 bilhão de pessoas sofrem com essas doenças. 500 milhões são crianças. A lista soma 18 doenças, entre elas a dengue, doença de chagas, leishmaniose, hanseníase e raiva. Por ano, são 170 mil mortos e milhões de pessoas com deficiência em decorrência das infecções.

Embora tenha comemorado avanços este ano, segundo Dr. De Cock, a OMS teria recebido mais atenção mundial senão fossem as emergências inesperadas como o ebola e o vírus zika.

“A globalização faz parte do discurso político atual. Diversos documentos vem mudando o paradigma de saúde local para mundial”, observa o especialista.

Foram 781.473 casos notificados de vírus zika, sendo 27% confirmados, em 48 cidades das Américas. Dos 3,5 mil casos confirmados, dois terços estavam no Brasil. 3.379 casos congênitos foram associados ao vírus zika. Países como Argentina, Canadá, Chile, Peru e Estados Unidos registraram transmissão sexual do vírus.

O ebola afetou 10 cidades, foram 28.646 casos suspeitos e 11.323 mortes só no ano de 2016.

“O ebola passou de uma infecção exótica tropical para um risco global. A infecção pelo vírus nos profissionais de saúde que trabalham no controle da doença é 100 vezes maior do que do resto da população. Durante o surto da infecção, 5 mil profissionais morreram por cauda da epidemia, durante o trabalho”, disse o especialista pedindo que a paleteia refletisse sobre os dados.

“Durante o processo de controle da epidemia do ebola, nós nos surpreendemos com o estigma e a discriminação. Eles nos remeteram ao que acontece com o HIV”, observou.

Atualmente, de acordo com o diretor do CDC, metade do financiamento global para o ebola é fornecido pelos Estados Unidos.