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30 anos de Parada SP: quando resistência, democracia e luta contra a aids caminham juntas

Artigo de Eduardo Barbosa para a Agência Aids relembra a trajetória conjunta entre a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo e o movimento de luta contra a aids.

Eduardo Barbosa participa da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo usando chapéu dourado e bandeira arco-íris diante da multidão na Avenida Paulista.
Eduardo Barbosa durante a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, símbolo histórico de resistência, diversidade e luta coletiva contra a aids e a LGBTfobia. | Foto: Agência Aids

Agência Aids
29/05/2026

Há 30 anos, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo transforma as ruas da cidade em um território de liberdade, memória, resistência e esperança. Três décadas depois da primeira marcha, seguimos ocupando a Avenida Paulista porque ainda há violência, exclusão, preconceito e tentativas permanentes de apagar nossas existências. Seguimos nas ruas porque nossos corpos, nossas vidas e nossos direitos continuam sendo disputados todos os dias.

O Movimento Paulistano de Luta contra a aids celebra os 30 anos da Parada reconhecendo sua importância histórica para a democracia brasileira e para a luta pelos direitos humanos. A Parada nunca foi apenas uma festa. Ela sempre foi um ato político, um grito coletivo contra a LGBTfobia, contra o autoritarismo e contra todas as formas de violência que tentam condenar pessoas LGBTQIAP+ à invisibilidade, ao medo e à morte.

Neste ano, ao completar três décadas, a Parada traz como tema “30 anos da Parada SP: A rua convoca, a urna confirma”, reafirmando a importância da participação política, do voto e da democracia como instrumentos fundamentais para garantir direitos e impedir retrocessos.

Esse tema dialoga profundamente com a história da resposta brasileira ao HIV/aids. A epidemia nos ensinou, de forma dura e dolorosa, que não existe enfrentamento à aids sem democracia, sem participação social e sem direitos humanos. Foi a mobilização da sociedade civil, dos movimentos LGBTQIAP+, das pessoas vivendo com HIV/aids, dos profissionais de saúde, dos pesquisadores e dos ativistas que construiu uma das respostas mais importantes do mundo à epidemia. Cada avanço — do acesso universal ao tratamento à construção de políticas públicas de prevenção — nasceu da pressão das ruas, da coragem de ativistas e da defesa inegociável da vida.

Por isso, falar da história da Parada é também falar da história do movimento aids.

Desde a primeira edição, o movimento de luta contra a aids esteve presente. Em 1997, pessoas vivendo com HIV/aids ocuparam um carro próprio e marcharam na Avenida Paulista para denunciar o preconceito, exigir dignidade e afirmar que suas vidas tinham valor. Em uma época marcada pelo medo, pelo silêncio e pelo estigma, aquele gesto foi revolucionário. Eram corpos historicamente marginalizados se recusando a desaparecer. Eram pessoas transformando dor em luta, exclusão em solidariedade e luto em resistência.

As duas lutas sempre caminharam juntas porque nasceram da mesma urgência: defender a vida de pessoas consideradas descartáveis por uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo preconceito.

A epidemia de HIV/aids atingiu de maneira brutal a população LGBTQIAP+, especialmente gays, homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres trans. Décadas depois, a realidade ainda exige atenção e compromisso político. Dados do Unaids mostram que populações-chave seguem sendo desproporcionalmente afetadas pelo HIV no Brasil. Entre pessoas trans, a prevalência estimada do HIV chega a cerca de 30%. Entre gays e outros homens que fazem sexo com homens, o índice ultrapassa 18%.

Esses números não existem por acaso. Eles refletem o impacto do preconceito, da exclusão social, da violência, do abandono escolar, da dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, da discriminação nos serviços de saúde e das sucessivas violações de direitos humanos que atingem a população LGBTQIAP+ no Brasil.

Não existe prevenção efetiva onde existe medo.
Não existe cuidado onde existe violência.
Não existe saúde pública forte onde direitos humanos são atacados.

Por isso, defender a democracia também é defender a resposta ao HIV/aids.

Nos últimos anos, vimos crescer no Brasil e no mundo discursos autoritários, ataques à ciência, perseguições contra pessoas LGBTQIAP+ e tentativas de desmontar políticas públicas construídas com décadas de luta. Em diversos países, leis anti-LGBTQIA+ avançam junto com o aumento da vulnerabilidade ao HIV. Quando direitos são atacados, vidas também são colocadas em risco.

Ao longo desses 30 anos, a Parada de São Paulo ajudou a manter viva a memória daqueles que perdemos para a aids e também a reafirmar que pessoas vivendo com HIV têm direito ao amor, ao cuidado, à dignidade e ao futuro. Em 2021, em plena pandemia de covid-19, a Parada trouxe o HIV/aids como tema central com o lema “HIV/Aids: Ame +, Cuide +, Viva +!”, recolocando a solidariedade no centro do debate público. Foi um lembrete poderoso de que nenhuma epidemia se enfrenta com ódio, moralismo ou abandono — epidemias se enfrentam com informação, políticas públicas, ciência e solidariedade.

E talvez seja justamente a solidariedade o maior legado construído pela história comum entre a Parada e o movimento aids.

Solidariedade foi o que manteve pessoas vivas quando o Estado se omitia.
Solidariedade foi o que acolheu corpos rejeitados por suas próprias famílias.
Solidariedade foi o que transformou medo em organização coletiva.
Solidariedade foi o que permitiu que milhares de pessoas vivendo com HIV continuassem acreditando na vida mesmo diante do preconceito e da morte.

Hoje, celebrar os 30 anos da Parada também é honrar cada ativista que abriu caminhos antes de nós. É lembrar das travestis expulsas de casa, dos gays perseguidos, das lésbicas invisibilizadas, das pessoas trans assassinadas, das pessoas vivendo com HIV criminalizadas pelo preconceito. É reconhecer que nenhuma conquista caiu do céu: cada direito foi arrancado com mobilização, coragem e resistência coletiva.

A Parada existe porque ainda há desigualdade.
A Parada cresce porque ainda há violência.
A Parada resiste porque ainda há quem tente nos silenciar.

E é exatamente por isso que continuaremos ocupando as ruas.

Seguiremos defendendo o SUS, a ciência, a prevenção combinada, o acesso universal ao tratamento, o combate ao estigma e políticas públicas que garantam vida digna para todas as pessoas LGBTQIAP+.

Seguiremos marchando porque não aceitaremos nenhum passo atrás.

Nos 30 anos da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, reafirmamos que democracia, diversidade, saúde pública e direitos humanos são inseparáveis. Não haverá fim da epidemia de aids sem justiça social. Não haverá cidadania plena enquanto pessoas LGBTQIAP+ continuarem sendo alvo de violência e exclusão.

A rua convoca.
A memória convoca.
A solidariedade convoca.

E nós seguiremos respondendo com luta, orgulho e resistência.

* Eduardo Barbosa é coordenador do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (Mopaids), presidente do Grupo Pela Vidda São Paulo e secretário político da Anaids