Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids email mopaids@gmail.com

Testagem nas ruas, jovens na universidade e redes de cuidado: sociedade civil debate o futuro da resposta ao HIV em São Paulo

Colóquio do Mopaids reuniu organizações históricas da luta contra a aids para discutir prevenção, financiamento e os desafios da atuação comunitária no enfrentamento da epidemia

VIII Colóquio de Experiências Exitosas do Mopaids
VIII Colóquio de Experiências Exitosas do Mopaids promove a troca de saberes e o fortalecimento das ações comunitárias no enfrentamento das IST, HIV/aids, tuberculose e hepatites virais. | Foto: Mopaids

Mopaids
12/03/2026

Em uma tarde chuvosa em São Paulo, ativistas, profissionais de saúde e representantes de organizações da sociedade civil se reuniram na sede do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) para o VIII Colóquio do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (Mopaids). O encontro, realizado em 11 de março, foi marcado por relatos de experiências comunitárias, reflexões sobre os desafios atuais da epidemia e um debate sobre o papel das organizações sociais na construção da resposta brasileira ao HIV.

Participaram do encontro representantes de organizações históricas da luta contra a aids, como o Instituto Cultural Barong, o Movimento Nacional das Cidadãs Positivas, o Grupo Pela Vidda São Paulo, a Casa Filadélfia, o Instituto Vida Nova e a Associação de Auxílio à Criança e Adolescente Portadora de HIV (AACPHIV).

Mesmo com ausências provocadas pelas fortes chuvas que atingiram a capital naquele dia, o encontro reuniu ativistas que, há décadas, atuam em diferentes frentes da resposta à epidemia — da prevenção nas ruas ao cuidado de crianças e jovens vivendo com HIV.

“São Paulo virou um caos hoje de manhã, metrô parado, chuva forte”, comentou um dos organizadores na abertura. “Mas a gente começa assim mesmo. Esses encontros são importantes justamente para manter o diálogo entre as organizações.”

Ao longo das apresentações, ficou evidente que, apesar dos avanços científicos e das novas tecnologias de prevenção, a resposta ao HIV continua profundamente ligada ao trabalho comunitário e às redes de solidariedade construídas pela sociedade civil.

Testagem nas ruas e prevenção nas festas

Uma das experiências apresentadas no colóquio foi a do Instituto Cultural Barong, organização que há três décadas atua com prevenção ao HIV em São Paulo.

A coordenadora e fundadora da organização, Marta McBritton, apresentou a trajetória do projeto de testagem extramuros — uma iniciativa que completa dez anos e que leva testes de HIV e orientação sobre prevenção para ruas, festas e espaços de convivência noturna.

A proposta nasceu de forma experimental, ainda nos anos 1990, quando um grupo de artistas decidiu levar a discussão sobre HIV para fora das instituições.

“A gente começou com um trailer, com uma camisinha gigante em cima, estacionado na rua. Era para ser um projeto de dois ou três anos”, contou Marta. “A ideia era sair das quatro paredes e falar sobre sexualidade de forma aberta.”

O projeto acabou se consolidando e hoje realiza ações regulares de prevenção e testagem em diferentes regiões da cidade.

Segundo ela, o diferencial do trabalho está na abordagem direta e sem moralismo. “A nossa abordagem sempre foi centrada no prazer. A gente fala de sexo na rua, literalmente”, afirmou.

Estar na rua também permite algo que muitas vezes não ocorre nos serviços tradicionais de saúde: anonimato. “As pessoas chegam e contam tudo da vida sexual delas. Porque sabem que podem falar sem julgamento”, explicou.

Prevenção de madrugada

Nos últimos anos, o Barong ampliou sua atuação para ambientes noturnos, incluindo festas e eventos privados frequentados principalmente por homens que fazem sexo com homens.

As equipes montam unidades móveis de testagem que funcionam entre meia-noite e cinco da manhã. “A gente monta a van às 23h e fica até de madrugada”, contou Marta. “É um ambiente diferente, onde as pessoas estão vivendo a sexualidade com muita liberdade.”

Além da testagem, as ações incluem orientações sobre prevenção combinada e encaminhamento para serviços que oferecem PrEP (profilaxia pré-exposição).

O trabalho também envolve lidar com novas dinâmicas da sexualidade contemporânea, como o uso de substâncias psicoativas em contextos sexuais — prática conhecida como sexo aditivado.

“Tem gente que administra isso de forma muito consciente”, relatou Marta. “A pessoa chega, conversa com a gente, faz o teste, pergunta sobre prevenção.”

Burocracia e falta de financiamento

Apesar dos resultados alcançados, as organizações enfrentam obstáculos significativos para manter esse tipo de trabalho.

Segundo Marta, a burocracia e a falta de financiamento adequado são alguns dos principais desafios.

Para realizar uma ação de testagem na rua, por exemplo, é necessário solicitar autorização da prefeitura com antecedência e pagar taxas. “Para colocar a van na rua, a gente precisa pedir autorização 30 dias antes e pagar uma taxa”, explicou. “E se chove no dia? A equipe precisa receber do mesmo jeito.”

Outro problema é que muitos editais públicos não permitem a contratação de profissionais de saúde ou o financiamento de atividades de testagem. “Você não pode pagar enfermeiro, não pode pagar gasolina, não pode pagar estacionamento da van”, disse. “Então como você mantém uma unidade móvel funcionando?”

Apesar das dificuldades, a organização já realizou mais de 600 ações extramuros, com uma média de 66 intervenções por ano.

Segundo Marta, a capacidade de atuação poderia ser muito maior caso houvesse financiamento adequado. “Nossa equipe permitiria triplicar esse número de ações”, afirmou.

Jovens vivendo com HIV e o direito de sonhar

Outro tema central do encontro foi o cuidado com crianças e adolescentes vivendo com HIV. A infectologista Marinella Della Negra apresentou a experiência da Associação de Auxílio à Criança e Adolescente Portadora de HIV, criada no final dos anos 1980.

Naquela época, a epidemia atingia muitas crianças por transmissão vertical — quando o vírus é transmitido da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto.

“O cenário era muito duro. Não havia tratamento eficaz, muitas crianças adoeciam gravemente”, lembrou.

Com o avanço do tratamento antirretroviral, a realidade mudou. Muitas dessas crianças cresceram e chegaram à adolescência. Isso trouxe um novo desafio: garantir a adesão ao tratamento.

A estratégia encontrada pela associação foi apostar na educação. “Quando o adolescente tem um projeto de vida, ele se cuida mais”, explicou a médica.

A organização passou a apoiar jovens que ingressam em universidades e cursos profissionalizantes, ajudando a financiar mensalidades e despesas relacionadas aos estudos. Até agora, cerca de 30 jovens já se formaram com apoio da iniciativa.

“O que mantém o jovem vivo é o sonho”, resumiu Marinella.

Redes comunitárias de cuidado

Também foram apresentadas experiências de articulação territorial voltadas à prevenção e ao cuidado.

Uma delas é o projeto Meu Corpo, Meu Bem, desenvolvido pela Casa de Assistência Filadélfia na região de Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital.

A iniciativa trabalha principalmente com jovens negros e moradores de territórios periféricos, combinando prevenção ao HIV com ações de promoção de direitos e proteção social.

Um dos pilares do projeto é a construção de redes intersetoriais envolvendo serviços de saúde, assistência social, escolas e organizações comunitárias.

A rede foi fortalecida durante a pandemia de COVID-19, quando a cooperação entre instituições se tornou essencial para garantir atendimento às populações mais vulneráveis.

Segundo os participantes, esse tipo de articulação tem ajudado a reintegrar pessoas que haviam abandonado tratamentos e a ampliar o acesso a serviços públicos.

A resposta comunitária continua essencial

Ao final do colóquio, os participantes destacaram que, apesar das mudanças nas estratégias de prevenção e dos avanços científicos, a epidemia continua marcada por profundas desigualdades sociais.

Populações em situação de maior vulnerabilidade — como jovens periféricos, pessoas negras, população LGBTQIA+ e pessoas vivendo em situação de pobreza — seguem enfrentando maiores barreiras de acesso à prevenção e ao cuidado.

Nesse contexto, as organizações da sociedade civil continuam desempenhando papel central.

Desde os primeiros anos da epidemia no Brasil, movimentos sociais foram responsáveis por pressionar o Estado por políticas públicas, ampliar o acesso à informação e construir redes de apoio para pessoas vivendo com HIV.

Quatro décadas depois, a luta continua.

“Enquanto houver estigma, desigualdade e barreiras ao cuidado, o trabalho da sociedade civil continua sendo essencial”, resumiu um dos participantes.

Mais do que um espaço de apresentações, o Colóquio Mopaids reforçou algo que atravessa toda a história da resposta brasileira à aids: a epidemia não se enfrenta apenas com medicamentos, mas também com mobilização social, solidariedade e defesa de direitos.