
Mopaids
05/08/2026
Neste 5 de agosto, o Mopaids reafirma que saúde é direito de todas as pessoas e que a resposta ao HIV e à Aids precisa garantir prevenção, diagnóstico, tratamento, cuidado integral e qualidade de vida em todas as fases da vida
Neste Dia Nacional da Saúde, 5 de agosto, o Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids) reafirma um princípio que não admite retrocessos: saúde é direito de todos e dever do Estado. E defender o direito à saúde das pessoas vivendo com HIV e Aids é defender, acima de tudo, o direito à vida.
O Brasil construiu uma das respostas ao HIV e à Aids mais importantes do mundo porque compreendeu que nenhuma epidemia pode ser enfrentada apenas com medicamentos. Foi preciso mobilização social, participação comunitária, ciência, políticas públicas, prevenção, assistência, combate ao preconceito e, sobretudo, reconhecimento de direitos.
Décadas depois do início da epidemia, temos motivos para reconhecer os avanços conquistados. O tratamento antirretroviral transformou radicalmente a história natural da infecção pelo HIV. Pessoas que, no passado, receberam diagnósticos associados à perspectiva de uma vida curta hoje podem estudar, trabalhar, construir relações, formar famílias, realizar projetos e envelhecer. Essa conquista, porém, aumenta nossa responsabilidade.
Da prevenção ao envelhecimento: o cuidado precisa acompanhar toda a vida
A resposta ao HIV começa antes do diagnóstico. Começa com informação, educação, acesso aos preservativos, testagem, PrEP, PEP e outras estratégias de prevenção combinada. Começa quando uma pessoa consegue procurar um serviço de saúde sem medo de ser julgada por sua orientação sexual, identidade de gênero, profissão, condição social ou forma de viver.
Quando existe um diagnóstico de HIV, uma nova etapa começa — e ninguém deveria atravessá-la sozinho.
É necessário garantir acolhimento, acesso rápido ao tratamento, acompanhamento adequado e informações que permitam compreender que viver com HIV hoje é muito diferente do que significava no início da epidemia. Também é fundamental ampliar o conhecimento sobre o conceito Indetectável = Intransmissível (I=I): pessoas vivendo com HIV que mantêm carga viral indetectável por meio do tratamento não transmitem o vírus sexualmente. Mas o cuidado não termina quando a carga viral se torna indetectável.
Pessoas vivendo com HIV são crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Têm necessidades diferentes ao longo da vida. Precisam de atenção à saúde sexual e reprodutiva, saúde mental, vacinação, prevenção e tratamento de outras infecções, acompanhamento das comorbidades e cuidado integral.
E cada vez mais precisamos falar sobre algo que representa uma das grandes conquistas da resposta à Aids: as pessoas com HIV estão envelhecendo.
Envelhecer com HIV é uma vitória da ciência, do SUS, das políticas públicas e da luta histórica das pessoas vivendo com HIV e Aids e dos movimentos sociais. Mas viver mais precisa significar também viver melhor.
Não basta garantir medicamentos antirretrovirais. É necessário preparar os serviços para acompanhar uma população que envelhece e que pode apresentar hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, alterações ósseas, questões relacionadas à saúde mental, solidão, dificuldades econômicas e outras condições próprias do envelhecimento.
O cuidado precisa olhar para a pessoa inteira, e não somente para o vírus.
Não existe saúde enquanto existir discriminação
Mesmo diante de tantos avanços científicos, o estigma relacionado ao HIV continua adoecendo, isolando e afastando pessoas dos serviços.
Ainda existem pessoas que têm medo de realizar um teste. Pessoas que escondem o diagnóstico por receio de perder relações afetivas, oportunidades profissionais ou vínculos familiares. Pessoas vivendo com HIV que ainda encontram preconceito até mesmo onde deveriam encontrar acolhimento.
Por isso, combater o estigma e a discriminação também é uma política de saúde.
Não podemos aceitar que, em uma época de extraordinários avanços científicos, alguém deixe de procurar prevenção, testagem ou tratamento por medo do preconceito.
Saúde é direito, não privilégio
A Constituição Federal é inequívoca ao estabelecer, em seu artigo 196, que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Esse princípio sustenta o Sistema Único de Saúde e precisa continuar orientando a resposta brasileira ao HIV e à Aids.
Defender o SUS significa defender acesso universal à prevenção, diagnóstico, medicamentos, exames e acompanhamento. Significa defender financiamento adequado, serviços fortalecidos, profissionais capacitados e políticas capazes de alcançar especialmente as populações mais vulnerabilizadas pela epidemia.
Significa também compreender que novas tecnologias precisam chegar às pessoas.
Não podemos naturalizar uma realidade na qual a ciência avança rapidamente enquanto o acesso permanece desigual. Novos medicamentos, tratamentos de longa duração e tecnologias de prevenção só representam verdadeiro progresso quando estão disponíveis para quem precisa deles.
O direito de viver — e de envelhecer
Neste Dia Nacional da Saúde, o Mopaids chama a atenção para uma mudança fundamental na história da epidemia. Durante muitos anos, nossa luta foi para que as pessoas com HIV não morressem.
Essa luta continua. Ainda existem diagnósticos tardios, mortes evitáveis, desigualdades no acesso aos serviços e pessoas que permanecem fora do cuidado.
Mas hoje nossa reivindicação precisa ir além. Queremos que as pessoas vivendo com HIV tenham direito a uma vida longa, digna e plena.
Direito de nascer com acesso à prevenção da transmissão vertical. Direito de crescer sem estigma. Direito de receber educação e informação. Direito à prevenção. Direito ao diagnóstico oportuno. Direito ao tratamento. Direito à saúde mental. Direito à sexualidade. Direito de constituir família. Direito de trabalhar. Direito de amar. Direito de fazer planos. E direito de envelhecer.
Envelhecer com HIV não pode significar enfrentar abandono, invisibilidade ou serviços despreparados para uma nova realidade epidemiológica. O envelhecimento precisa entrar definitivamente nas políticas de HIV e Aids, com atenção integral, proteção social e respeito à autonomia das pessoas.
Nossa luta é pela vida
O Dia Nacional da Saúde não é apenas uma data no calendário. Para o movimento social de luta contra a Aids, é uma oportunidade de lembrar que muitos dos direitos que hoje parecem garantidos foram conquistados por pessoas que se organizaram, ocuparam espaços, enfrentaram preconceitos e exigiram do Estado respostas à altura da epidemia.
Nenhum desses direitos pode ser considerado definitivo.
Por isso, neste 5 de agosto, o Mopaids reafirma seu compromisso com a defesa do SUS, com a participação social, com a ciência, com o acesso universal às novas tecnologias, com o enfrentamento ao estigma e à discriminação e com políticas públicas que acompanhem as pessoas vivendo com HIV e Aids durante toda a vida.
Da prevenção ao diagnóstico. Do tratamento à qualidade de vida. Da juventude ao envelhecimento.
Porque falar de HIV e Aids é falar de saúde. Falar de saúde é falar de direitos. E falar de direitos é defender o direito de todas as pessoas viverem — e viverem com dignidade.
Mopaids – Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids