Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids email mopaids@gmail.com

Nota em defesa da dignidade, do sigilo e do direito à saúde das pessoas vivendo com HIV/Aids

Movimento alerta para risco ao sigilo, à confidencialidade e ao direito à saúde; pede diálogo com sociedade civil e atuação dos órgãos de controle.

Câmeras de vigilância instaladas em corredor, simbolizando a vigilância em serviços especializados em HIV/Aids
Mopaids exige a retirada imediata de câmeras do programa Smart Sampa das áreas internas de serviços especializados em HIV/Aids para garantir sigilo, confidencialidade e o acesso digno ao SUS. | Foto: freepik.com

MOPAIDS
16/01/2026

O Movimento Paulista de Luta Contra a Aids (MOPAIDS) vem a público manifestar profunda preocupação e repúdio à instalação de câmeras do programa Smart Sampa em áreas internas de serviços especializados em HIV/Aids no município de São Paulo. Tal medida representa uma grave ameaça aos princípios que sustentam a resposta brasileira à epidemia de HIV/Aids: o respeito aos direitos humanos, a garantia do sigilo, a confidencialidade das informações de saúde e o acesso universal, integral e equânime ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Desde o início da epidemia, a luta das pessoas vivendo com HIV/Aids e dos movimentos sociais organizados foi decisiva para que o cuidado em saúde fosse estruturado com base na ética, na confiança e na dignidade humana. Qualquer iniciativa que fragilize esses pilares compromete não apenas indivíduos, mas toda a política pública de enfrentamento ao HIV/Aids.

A recente denúncia jornalística revelou a instalação de câmeras de vigilância do programa municipal Smart Sampa em áreas internas de um Serviço de Assistência Especializada (SAE), equipamento estratégico do SUS para o atendimento de pessoas vivendo com HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). A vinculação dessas câmeras a um sistema de segurança pública, com uso de tecnologias de reconhecimento facial, acendeu um alerta imediato entre conselhos de políticas públicas, organizações da sociedade civil, profissionais de saúde e usuários do sistema.

A situação ganha ainda maior gravidade diante de episódios já registrados em outros equipamentos públicos, nos quais o uso dessas tecnologias resultou em abordagens policiais indevidas, prisões equivocadas e evasão de usuários dos serviços de saúde e de cuidado psicossocial.

As pessoas vivendo com HIV/Aids carregam uma longa história de estigmatização, discriminação institucional, violência simbólica e violações de direitos. O medo da exposição da sorologia ainda é uma realidade concreta, como demonstram pesquisas nacionais recentes, que indicam que uma parcela significativa das pessoas vivendo com HIV evita ou adia a busca por serviços de saúde por receio de sofrer maus-tratos ou ter sua condição revelada sem consentimento.

Nesse contexto, o sigilo não é um detalhe administrativo: é condição essencial para a permanência no cuidado, a adesão ao tratamento e a efetividade das políticas públicas. A simples presença de câmeras em ambientes de acesso aos serviços especializados já é suficiente para gerar constrangimento, medo e desconfiança, especialmente entre populações historicamente criminalizadas e marginalizadas.

A instalação de sistemas de vigilância em serviços especializados em HIV/Aids confronta diretamente o marco legal brasileiro. A Lei nº 14.289/2022 estabelece a obrigatoriedade da preservação do sigilo sobre a condição de pessoa vivendo com HIV, hepatites virais, hanseníase e tuberculose, vedando qualquer divulgação ou prática que possibilite a identificação dessas condições em serviços de saúde, na administração pública e na segurança pública.

Além disso, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica informações de saúde como dados sensíveis, exigindo proteção reforçada, finalidade específica e estrita necessidade para qualquer forma de coleta ou tratamento. A associação de imagens de usuários de serviços de HIV a sistemas de vigilância pública viola esses princípios e expõe o Estado a graves responsabilidades legais.

Do ponto de vista ético, trata-se de uma ruptura com a lógica do cuidado centrado na pessoa, substituída por uma lógica de controle que transforma espaços de acolhimento em ambientes de vigilância.

O SUS é reconhecido internacionalmente por sua resposta ao HIV/Aids, baseada na universalidade do acesso, na gratuidade do tratamento e na centralidade dos direitos humanos. Medidas que afastam usuários dos serviços especializados enfraquecem essa resposta e colocam em risco conquistas históricas, como a redução da mortalidade, o controle da carga viral e a prevenção combinada.

A evasão de pacientes, o abandono de tratamento e a quebra de vínculo com as equipes de saúde têm efeitos diretos e mensuráveis: aumento da transmissão do HIV, agravamento de quadros clínicos, sobrecarga do sistema e aprofundamento das desigualdades em saúde.

Diante desse cenário, o MOPAIDS reafirma que:

  • O sigilo, a confidencialidade e a confiança são princípios inegociáveis no cuidado em HIV/Aids;
  • Serviços especializados do SUS não podem ser submetidos a políticas de segurança pública que produzam medo, constrangimento ou criminalização de seus usuários;
  • Pessoas vivendo com HIV/Aids devem ser reconhecidas como sujeitos de direitos, e não como alvos de vigilância;
  • Qualquer política pública que impacte o cuidado em HIV/Aids deve ser construída com participação social, transparência e controle democrático.

O MOPAIDS exige:

  1. A retirada imediata de câmeras de vigilância vinculadas ao programa Smart Sampa de todas as áreas internas de serviços especializados em HIV/Aids;
  2. A garantia formal, por parte da Prefeitura de São Paulo, de que nenhum equipamento do SUS voltado ao cuidado em HIV/Aids será integrado a sistemas de vigilância ou reconhecimento facial;
  3. A abertura de diálogo público com os movimentos sociais, conselhos de saúde e organizações de pessoas vivendo com HIV/Aids;
  4. A atuação dos órgãos de controle, incluindo o Ministério Público, para apuração de eventuais violações de direitos;
  5. O fortalecimento de políticas de segurança que não se sobreponham aos direitos humanos nem comprometam o acesso à saúde.

A história da resposta ao HIV/Aids no Brasil demonstra que avanços só são possíveis quando o cuidado é orientado pela dignidade humana, pela solidariedade e pela justiça social. Transformar serviços de saúde em espaços de vigilância é um retrocesso inaceitável.

O MOPAIDS seguirá vigilante, mobilizado e comprometido com a defesa intransigente das pessoas vivendo com HIV/Aids, do SUS e dos direitos humanos. Nenhuma tecnologia pode se sobrepor à vida, à dignidade e ao direito de existir sem medo.

Movimento Paulista de Luta Contra a Aids – MOPAIDS