
Mopaids
04/08/2026
A ciência avança. O acesso não pode esperar: sem direitos, financiamento e participação social, não haverá fim da epidemia de aids
A 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro, terminou deixando uma mensagem que não pode ser ignorada: o mundo dispõe de conhecimento, tecnologias e experiências suficientes para mudar radicalmente o curso da epidemia de HIV, mas os avanços científicos continuarão sendo insuficientes enquanto milhões de pessoas forem impedidas de acessá-los.
Para o Movimento Paulista de Luta Contra a Aids (Mopaids), a conferência evidenciou uma contradição que precisa ser enfrentada politicamente. De um lado, vimos uma ciência cada vez mais capaz de oferecer novas possibilidades de prevenção, diagnóstico, tratamento e qualidade de vida. De outro, assistimos à permanência de barreiras econômicas, sociais e políticas que determinam quem terá acesso a essas conquistas, quando terá acesso e, em muitos casos, se terá acesso.
Não podemos aceitar uma resposta ao HIV em duas velocidades: uma para quem pode pagar e outra para quem precisa esperar.
A AIDS 2026 aconteceu sob o chamado para repensar, reconstruir e avançar. Para a sociedade civil, essas palavras precisam significar mais do que um lema. Repensar significa reconhecer que o atual modelo de acesso às tecnologias em saúde continua produzindo desigualdades. Reconstruir significa recuperar financiamento, participação social, solidariedade internacional e políticas públicas baseadas em direitos humanos. E avançar significa garantir que cada descoberta científica se transforme, o mais rapidamente possível, em direito concreto para as pessoas.
Inovação sem acesso não é suficiente
Entre os grandes destaques da AIDS 2026 estiveram as tecnologias de longa duração para prevenção e tratamento do HIV. Medicamentos administrados em intervalos cada vez maiores e novas possibilidades de profilaxia mostram que estamos diante de uma transformação importante na resposta à epidemia.
Mas a pergunta que atravessou corredores, debates e manifestações no Rio de Janeiro foi outra: quem terá acesso a essas tecnologias?
O lenacapavir tornou-se um dos principais símbolos dessa disputa. Uma tecnologia de prevenção administrada apenas duas vezes por ano, com altíssima eficácia demonstrada nos estudos, representa uma possibilidade histórica para ampliar a prevenção do HIV, especialmente entre pessoas que encontram dificuldades para utilizar diariamente a PrEP oral.
Entretanto, uma inovação capaz de prevenir novas infecções perde parte de seu potencial quando preços elevados, negociações comerciais, patentes e limitações territoriais impedem que ela chegue rapidamente às populações que mais precisam.
Durante a conferência, ativistas de diferentes países, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, incluindo os representantes do Mopaids, ocuparam os espaços da AIDS 2026 para cobrar acesso ao lenacapavir e a outras tecnologias. As manifestações não foram acontecimentos paralelos à programação científica. Elas foram parte essencial da conferência.
A história da resposta à aids demonstra que praticamente nenhum grande avanço chegou às populações mais vulnerabilizadas apenas pela lógica do mercado. Foi necessária mobilização social para garantir medicamentos, reduzir preços, enfrentar monopólios, ampliar diagnóstico, construir políticas de prevenção e transformar o tratamento em direito.
Essa história não pode ser esquecida justamente quando uma nova geração de tecnologias começa a surgir. O Brasil não pode aceitar que o preço determine o direito à prevenção
A discussão sobre acesso ganhou dimensão ainda mais concreta durante a AIDS 2026 diante das negociações envolvendo a incorporação de novas tecnologias ao Sistema Único de Saúde.
O SUS é uma das maiores conquistas sociais brasileiras e foi decisivo para que o Brasil construísse uma resposta ao HIV reconhecida internacionalmente. A garantia do tratamento antirretroviral gratuito e universal demonstrou ao mundo que enfrentar a aids exige decisão política.
Por isso, o Brasil precisa continuar defendendo o princípio que marcou sua história: a vida deve estar acima dos interesses comerciais.
O acesso às novas tecnologias não pode depender exclusivamente da capacidade de pagamento dos países nem das estratégias comerciais das empresas farmacêuticas. Quando preços inviabilizam políticas públicas capazes de prevenir infecções, evitar adoecimentos e salvar vidas, é obrigação dos governos utilizar todos os instrumentos disponíveis para proteger a saúde pública.
Isso inclui negociação de preços, produção pública, transferência de tecnologia, licenciamento voluntário em condições efetivamente acessíveis e, quando necessário para proteger o interesse público, o uso dos mecanismos legais previstos nacional e internacionalmente, incluindo o licenciamento compulsório.
Defender esses instrumentos não significa ser contrário à inovação. Significa defender que a inovação cumpra sua finalidade social.
Não aceitaremos uma epidemia administrada pela desigualdade
A AIDS 2026 também deixou evidente que não existe resposta biomédica capaz de substituir políticas de direitos humanos.
Pessoas negras, mulheres, população LGBTQIA+, pessoas trans, profissionais do sexo, pessoas privadas de liberdade, pessoas que usam drogas, migrantes, jovens e populações socialmente vulnerabilizadas continuam enfrentando barreiras que vão muito além da disponibilidade de medicamentos.
Estigma, discriminação, racismo, violência, desigualdade de gênero, pobreza e criminalização continuam afastando pessoas dos serviços de saúde.
Por isso, falar em novas tecnologias sem discutir quem consegue chegar até elas é insuficiente.
Não basta produzir uma PrEP mais moderna se as pessoas que mais precisam dela encontram preconceito na porta do serviço de saúde. Não basta ampliar testes se o diagnóstico continua acompanhado pelo medo da discriminação. Não basta desenvolver medicamentos de longa duração se seu preço os transforma em privilégio.
A resposta à aids precisa ser construída a partir das pessoas e dos territórios.
O financiamento da resposta global está sob ameaça
Outro alerta político atravessou a conferência: a fragilidade do financiamento internacional para o enfrentamento do HIV.
A redução de recursos, as mudanças nas prioridades dos governos e a instabilidade dos mecanismos internacionais de cooperação ameaçam conquistas construídas ao longo de décadas.
Serviços comunitários, programas de prevenção, organizações da sociedade civil e estruturas responsáveis por levar tratamento às populações mais vulnerabilizadas não podem permanecer sujeitos às oscilações políticas dos países doadores.
Quando o financiamento desaparece, as consequências não ficam restritas às planilhas dos organismos internacionais. Elas chegam aos territórios. Significam testes que deixam de ser realizados, ações de prevenção interrompidas, serviços fragilizados e pessoas que podem perder acesso ao cuidado.
A resposta global ao HIV precisa de financiamento sustentável, previsível e comprometido com direitos humanos.
A sociedade civil não é convidada: é parte da resposta
A presença do ativismo na AIDS 2026 reafirmou uma característica histórica da epidemia de HIV: nenhuma política efetiva foi construída sem participação social.
Foram pessoas vivendo com HIV e aids, ativistas e organizações comunitárias que denunciaram mortes evitáveis, pressionaram governos, enfrentaram preços abusivos, combateram o estigma e ajudaram a transformar conhecimento científico em políticas públicas.
Essa participação não pode ser reduzida a espaços simbólicos.
A sociedade civil precisa estar presente onde as decisões são tomadas: nas negociações sobre medicamentos, nos processos de incorporação de tecnologias, na definição dos orçamentos, na construção das políticas de prevenção e na avaliação dos serviços.
Participação social não é concessão. É um dos pilares da resposta brasileira à aids.
E qualquer tentativa de enfraquecer conselhos, movimentos sociais, organizações comunitárias ou mecanismos de controle social significa enfraquecer a própria política de enfrentamento ao HIV.
O ativismo continua necessário
A AIDS 2026 mostrou também que, apesar de quatro décadas de avanços científicos, o ativismo continua tão necessário quanto no início da epidemia.
Mudaram os medicamentos. Mudaram as tecnologias. Mudaram as possibilidades de prevenção.
Mas muitas das disputas permanecem.
Continuamos discutindo preço. Continuamos discutindo patente. Continuamos discutindo desigualdade. Continuamos denunciando estigma e discriminação. Continuamos exigindo financiamento. Continuamos lembrando governos e empresas de que por trás de cada decisão existem vidas.
Enquanto uma tecnologia capaz de prevenir o HIV não chegar a quem precisa dela, haverá motivo para mobilização.
Enquanto pessoas forem discriminadas por viver com HIV, haverá motivo para mobilização.
Enquanto a pobreza determinar quem consegue se prevenir, haverá motivo para mobilização.
Enquanto medicamentos essenciais forem tratados apenas como mercadorias, haverá motivo para mobilização.
O Brasil tem responsabilidade histórica
Realizar a Conferência Internacional de AIDS no Brasil também impõe uma responsabilidade.
O país construiu uma das respostas mais importantes à epidemia justamente porque, em diferentes momentos de sua história, teve coragem de enfrentar interesses econômicos, defender o SUS, garantir tratamento universal e reconhecer a sociedade civil como parte fundamental da política pública.
Esse patrimônio não pertence a um governo. Pertence à sociedade brasileira.
O Mopaids defende que o Brasil retome e fortaleça esse protagonismo.
Isso significa defender o SUS, ampliar os investimentos na resposta ao HIV e às demais IST, fortalecer organizações comunitárias, enfrentar o estigma e a discriminação, garantir prevenção combinada em todos os territórios e assumir uma posição firme nas negociações para acesso às novas tecnologias.
O Brasil não pode ser apenas o país que recebe uma conferência internacional sobre aids. Precisa continuar sendo um país capaz de influenciar os rumos da resposta global.
Não queremos promessas de acesso futuro. Queremos acesso agora.
A ciência fez sua parte ao desenvolver ferramentas que podem transformar a prevenção e o tratamento do HIV.
Agora, a decisão é política.
Governos precisam decidir se essas tecnologias serão incorporadas às políticas públicas.
Empresas farmacêuticas precisam decidir se continuarão tratando medicamentos essenciais prioritariamente como ativos comerciais ou se assumirão sua responsabilidade diante de uma epidemia que ainda produz adoecimento, desigualdade e mortes evitáveis.
Organismos internacionais precisam defender mecanismos efetivos para que países de baixa e média renda tenham acesso rápido às inovações.
E a sociedade civil continuará fazendo aquilo que sempre fez: pressionar, fiscalizar, propor e ocupar os espaços onde decisões sobre nossas vidas são tomadas.
O Mopaids reafirma que acesso universal às tecnologias de prevenção, diagnóstico e tratamento é um direito, não um privilégio.
Não aceitaremos que uma pessoa tenha acesso a uma tecnologia capaz de prevenir o HIV simplesmente porque nasceu em determinado país, enquanto outra precise esperar anos porque vive em uma região excluída de acordos comerciais.
Não aceitaremos que preços impeçam sistemas públicos de saúde de utilizar tecnologias capazes de evitar novas infecções.
Não aceitaremos que a crise de financiamento seja utilizada como justificativa para abandonar populações que historicamente sustentaram a luta contra a epidemia.
E não aceitaremos retrocessos nos direitos humanos conquistados ao longo de mais de quatro décadas de enfrentamento à aids.
Da AIDS 2026 para os territórios
As luzes da conferência se apagaram no Rio de Janeiro. Pesquisadores, gestores, organismos internacionais, empresas e ativistas voltaram para seus países.
Mas a epidemia continua.
Ela continua nas periferias, nas cidades pequenas, nas grandes metrópoles, nos serviços públicos de saúde, nas organizações comunitárias e na vida cotidiana das pessoas que vivem com HIV.
É nesses territórios que será possível medir o verdadeiro impacto de tudo o que foi anunciado na AIDS 2026.
A próxima revolução na resposta ao HIV não será apenas descobrir um novo medicamento. Será garantir que ele chegue a todas as pessoas que precisam dele.
A AIDS 2026 nos mostrou que temos ciência para avançar. Agora precisamos de coragem política para transformar conhecimento em acesso, tecnologia em direito e promessas em políticas públicas.
O Mopaids seguirá ao lado das pessoas vivendo com HIV e aids, dos movimentos sociais, das organizações comunitárias, dos trabalhadores da saúde e de todos aqueles que defendem uma resposta baseada no SUS, nos direitos humanos, na equidade e na participação social.
Porque aprendemos, ao longo de mais de quatro décadas de epidemia, uma lição que nenhuma conferência pode esquecer:
sem acesso não existe inovação.
Sem direitos não existe resposta sustentável.
Sem financiamento não existe política pública.
Sem participação social não existe democracia.
E sem ativismo não haverá fim da aids.
Movimento Paulista de Luta Contra a Aids – Mopaids
O Mopaids agradece ao DATHI, à Coordenadoria de IST/Aids do Município de São Paulo, à Frontline AIDS, à Agência de Notícias da Aids, à IAS e a todas as instituições e pessoas parceiras que contribuíram para viabilizar a participação das ONGs filiadas na 26ª Conferência Internacional de Aids.
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